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O QUE A DEMOCRACIA TEM A VER COM A SEGURANÇA

            Dois fatos recentes colocaram em questão os conceitos vigentes no RS sobre o papel das forças de segurança, os direitos humanos e a segurança dos cidadãos. Não se trata de uma discussão ideológica, ainda que seja inseparável do debate de valores éticos e humanos. Se trata, isto sim, de discutir de maneira objetiva qual o foco e quais as prioridades das autoridades em relação ao graves problemas da violência urbana.

            Dois acontecimentos da semana passada servem como ponto de partida de nossa reflexão. No dia 4/11, a Brigada Militar realizou em Porto Alegre exercícios de treinamento anti-disturbios, utilizando helicópteros, aviões, cães e cavalos. Foi mobilizado um contingente de mais de 300 soldados, de três regiões do estado. Imaginem a logística e o custo de uma operação dessa natureza, apenas para treinar soldados para enfrentar movimentos sociais.

Dois dias depois,  no dia 6/11, uma quadrilha fortemente armada ocupou a cidade de Farroupilha. Eram 10 a 12 homens, armados com fuzis, que assaltaram duas agências bancárias. Para enfrentá-los, menos de uma dezena de PMs com pouco armamento e equipamento sucateado. Os bandidos puderam se dar ao luxo de parar em sua fuga e neutralizar a perseguição dos policiais com base na seu maior poder de fogo.

Esta é uma demonstração clara da gravidade do erro que vem sendo cometido pelo governo do estado na área da segurança. Uma política eficiente de segurança implica não apenas em investimento, em treinamento, em armamento. Demanda também inteligência, foco e clareza de objetivos. E o problema em nosso estado é que a obsessão do nosso comando, e do governo, está em reprimir os movimentos sociais, em combater as vozes que se levantam para criticar as políticas do governo. Isto coloca em segundo plano as ações de inteligência, a integração da brigada com a polícia civil, o planejamento e a busca de uma remuneração justa para nossos praças.

Os movimentos sociais foram decisivos para a reconstrução da democracia em nosso país. E democracia significa, entre outras coisas, liberdade de organização, direito de opinião e de manifestação, possibilidade de que todos possam expressar de forma livre as suas demandas. O governo, ao priorizar o combate aos movimentos sociais, não apenas está adotando uma postura totalmente contrária ao espírito democrático de nossa Constituição. Está também deslocando esforços e recursos que já são limitados, e que poderiam estar combatendo criminosos, para combater movimentos políticos, como nos tempos da ditadura. A polícia é para combater o crime, e isso nossos governantes aparentemente ainda precisam aprender.